Como lidar com pacientes não aderentes

30/01/2018

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A adesão ao tratamento antirretroviral (TARV) deve ser entendida como um processo dinâmico e de corresponsabilidade entre paciente e equipe de saúde, que exige o envolvimento destes e de outras pessoas do círculo de apoio social.

 

É fundamental que a pessoa vivendo com HIV (PVHIV) tenha a consciência de que o tratamento é para toda a vida, que pode trazer efeitos secundários para muitos pacientes e que a enfermidade ainda não tem cura. Isso torna necessário uma atenção especial na preparação dos pacientes ao iniciar o tratamento, a fim de que seus benefícios sejam compreendidos e que este assuma um significado positivo na vida da PVHIV.

 

Para garantir a adesão é importante adotar estratégias que identifiquem os motivos da falta de adesão e que auxiliem a lidar com cada perfil de paciente. Além disso, se faz necessário desenvolver uma estrutura de acompanhamento e de apoio psicossocial para o paciente ao longo do tratamento, uma vez que os níveis de adesão tendem a diminuir após períodos prolongados de uso dos medicamentos.

 

Monitoramento e avaliação da adesão ao tratamento

 

Monitorar se o paciente está tomando corretamente os medicamentos é um dos principais pontos de atenção da equipe multidisciplinar, já que não existem procedimentos capazes de garantir a total adesão.

O método mais utilizado, seja em pesquisas ou na atenção cotidiana em saúde, ainda é o autorrelato. Contudo, é comum que pacientes superestimem sua adesão, por diversas razões. Por isso, há alguns métodos e ferramentas que podem ser utilizados para averiguar e fortalecer a adesão.

 

Contagem de pílulas

 

A contagem de pílulas pode ocorrer de forma anunciada ou de forma inesperada, nas consultas clínicas ou quando o paciente retorna à farmácia para buscar mais comprimidos trazendo seu frasco com o saldo existente.

Esse método pode ser ineficaz se o paciente não se sentir bem acolhido ou não tiver uma boa relação com a equipe de saúde a ponto de relatar suas dificuldades com o tratamento.

A contagem inesperada de pílulas é mais utilizada em pesquisas. Entretanto, o fator surpresa pode reforçar para o paciente o sentimento de policiamento ou de desconfiança da equipe acerca de seu comportamento de adesão. Nesse caso, é ideal que o método só seja aplicado em caso de consentimento do paciente.

 

Registro da farmácia de dispensação de ARV

 

O uso dos registros da farmácia como medida de adesão é muito comum. Um dos indicadores dos níveis de adesão pode ser a data de retirada dos medicamentos da farmácia comparada com a data esperada. Essa medida baseia-se na possibilidade de que pacientes que buscam seus medicamentos na data certa tendem a tomá-los mais corretamente do que aqueles que atrasam.

 

Monitoramento dos níveis de medicamento ARV

 

Os níveis de medicamento no sangue têm sido considerados uma medida direta e objetiva da adesão aos medicamentos que pode ser usada tanto na rotina clínica quanto em pesquisas. A análise é feita mediante o resultado de um exame de sangue que indica os níveis do medicamento presentes.

Contudo, o exame só é capaz de refletir a ingestão do medicamento nas últimas 24 horas e os resultados podem variar devido a fatores como a interação com outros medicamentos ou com determinados alimentos, além do custo elevado.

A adesão é um fenômeno complexo e dinâmico, sem uma medida padrão-ouro definida para seu monitoramento e aferição. Cada método apresenta vantagens e desvantagens e é preciso considerar diferentes aspectos para utilizá-los de acordo com a realidade dos diferentes contextos socioculturais e econômicos.

É importante salientar que o monitoramento da adesão deve ser utilizado como uma estratégia de apoio ao paciente, na medida em que auxilia a equipe de saúde a identificar possíveis dificuldades, o que permite delinear um plano de intervenção de acordo com as necessidades de cada um. Portanto, deve ser utilizada como um recurso de ajuda ao paciente e não como uma forma de culpá-lo pelas dificuldades de adesão.

  • Referência bibliográfica:

  • 1. POLEJACK, et al. Monitoramento e avaliação da adesão ao tratamento antirretroviral para HIV/AIDS: desafios e possibilidades. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232010000700029> Acesso em 22 jan. 2018.

BR/HIVP/0005/18 JANEIRO 2018