Diagnóstico tardio ainda está relacionado com medo e estigma

07/05/2020

 

A equipe multidisciplinar é capaz de melhorar esse cenário a partir do fortalecimento dos vínculos e do reforço positivo, mostrando que é possível viver com HIV e qualidade de vida.

Ao longo dos anos, a infecção por HIV/AIDS no Brasil passou por mudanças em seu perfil epidemiológico. Desde 2010, vem-se observando uma tendência à queda da proporção de pessoas vivendo com HIV (PVHIV) que se apresentaram pela primeira vez ao SUS tardiamente, caracterizada pelo resultado do primeiro CD4 menor que 200 células/mm3. Ao serem estratificados de acordo com o sexo, observa-se que a proporção de diagnóstico tardio entre os homens caiu de 37% em 2010, para 27% em 2018. Já entre as mulheres, tais proporções apresentaram redução mais discreta: de 29%, em 2010, para 26%, em 2018.1

Quanto maior a contagem de células CD4 no diagnóstico, mais recente é a infecção e melhor o prognóstico da PVHIV. A apresentação tardia ao sistema de saúde é um indicativo de falha no acesso ao diagnóstico.1

Estima-se que, ao final de 2018, havia aproximadamente 900 mil PVHIV no país, das quais 766 mil (85%) estavam diagnosticadas; 81% (731 mil) haviam sido vinculadas a algum serviço de saúde; e 643 mil (71%) estavam retidas nos serviços.1 Esses 15% ainda não diagnosticados representam um desafio para o sistema de saúde. A enfermeira na Unidade de Referência para PVHIV em Belém (PA), Edilene Mayene Carvalho de Castro, comenta que na grande maioria das vezes as pessoas não realizam o teste pelo medo do diagnóstico positivo. Além disso, diz ela, também existem aqueles que acreditam ser imunes à doença. “Observamos, ainda, um total desinteresse pelas informações transmitidas pelos órgãos competentes, a não devida importância ao uso do preservativo e a falta de procura por exames e consultas periódicas”.

A enfermeira, que também é pós-graduada em Urgência e Emergência pela Faculdade Integrada da Amazônia (Finama), acredita que a população precisa compreender que qualquer pessoa corre o risco de ser infectada e deve procurar o sistema de saúde para verificação. “Com os avanços da medicina e a adesão correta ao tratamento, a PVHIV é capaz de levar uma vida normal e com qualidade”, lembra ela.

Além do medo do resultado do exame, Edilene chama a atenção para o estigma e a discriminação, ainda muito presentes na sociedade, que se configuram como outros dos principais obstáculos para prevenção, tratamento e cuidado em relação ao HIV. Em sua vivência, ela observa que os homens são os mais temerosos e resistentes em procurar assistência médica e comparecer às consultas periódicas. “Eles só procuram ajuda como última alternativa”, atesta.

Os impactos do diagnóstico tardio para a população são significativos, pois cresce a probabilidade do paciente já chegar ao serviço de saúde com a doença em estágio avançado, além de haver risco aumentado da transmissão. “O atraso no diagnóstico torna a resposta ao tratamento mais demorada, visto que o indivíduo terá de tratar tanto a AIDS (quando a taxa de CD4 é inferior a 200 células por mm3) como também possíveis doenças oportunistas. Isso faz com que se aumente o tempo de espera até o sucesso do tratamento e melhoria da qualidade de vida”, ressalta Edilene.

Medo faz parte da rotina das PVHIV

O medo é natural para qualquer ser humano, pois faz parte da vida e é imprescindível para a sobrevivência das espécies. Atualmente a medicina conta com um amplo repertório de antirretrovirais para tratamentos, ajudando até mesmo a reverter problemas considerados graves. Nesse sentido, Edilene afirma que o primeiro passo deve ser dado. Quem suspeita da contaminação pelo vírus HIV deve ser testado. “Por mais difícil que seja aceitar o diagnóstico e iniciar o tratamento, isso não representa o final da vida”, destaca. Ao contrário, pois, quando o HIV é identificado precocemente e quando se faz o tratamento antirretroviral (TARV) corretamente, as chances de melhora e controle da infecção são grandes. “Portanto, a maior arma que temos é a informação. Tão importante quanto educar o paciente é transmitir segurança, independente do resultado do exame, assegurando que ele terá à sua disposição profissionais que lhe acolherão no sistema de saúde”, pontua a enfermeira.

Equipe multidisciplinar pode reverter este cenário

Os membros da equipe multidisciplinar devem acolher o paciente, oferecer orientações, mostrar-se disponíveis para sanar dúvidas, criar uma boa relação e vínculo, e ajudá-lo a superar o medo.

Edilene acredita que isso possa acontecer por meio da capacitação de mais profissionais da área de saúde, para que se ofereça o acolhimento ao paciente desde o primeiro contato. “Devemos ajudar o paciente a se adaptar às mudanças de vida impostas pelo HIV e promover a reflexão necessária para o enfrentamento desta condição, tanto para ele como para seus familiares”, comenta ela.

Acolhimento, adesão e retenção

Independente do diagnóstico precoce ou tardio, é fundamental conquistar a confiança do paciente para retê-lo no serviço de saúde. A adesão muitas vezes é considerada um fenômeno que se limita ao paciente, no entanto, existem vários fatores que afetam este processo, incluindo aqueles relativos à equipe de saúde, aos profissionais e ao local onde a pessoa realiza seu tratamento. O acolhimento, caracterizado pelo processo inicial da relação profissional de saúde-paciente, é muito importante; pois falhas nessa fase podem comprometer a vinculação do usuário aos serviços de saúde. Ao contrário, a satisfação do paciente com seu atendimento desde o acolhimento tende a favorecer o vínculo com a equipe e com o serviço, bem como a adesão ao tratamento.2

Edilene aponta que todos os profissionais da equipe multidisciplinar devem agir com educação e mostrar interesse. Isso pode ser feito a partir do contato visual, garantindo que o paciente esteja seguro e tranquilo. “Em nossa sala de enfermagem temos uma plaquinha com a frase: Sempre vale a pena viver! Eu sempre gosto de citá-la e reforçar o conceito desde o primeiro acolhimento”, conta.

É necessário explicar de uma forma adequada e em linguagem acessível o que é o vírus, o que acontecerá com o organismo a partir do momento da confirmação da infecção e quais serão seus deveres e obrigações dali para frente. A enfermeira recomenda também que se chame o paciente sempre pelo nome, estabelecendo uma relação mais próxima. “O profissional de saúde deve ter uma postura ética e sigilosa, evitando julgamentos de valor e respeitando crenças, costumes, práticas e diferentes modos de vida do paciente”, aconselha.

Desde o primeiro contato, este profissional deve deixar claro seu compromisso quanto ao sigilo e confidencialidade de todas as informações que forem compartilhadas e, por fim, fazer com que o paciente entenda que a PVHIV poderá levar sua vida normalmente, desde que assuma alguns cuidados, como fazer o tratamento corretamente.

O profissional citado contribuiu de forma voluntária para essa ação, não tendo recebido nenhum pagamento para esse fim.

 

 

NP-BR-HVX-BRFS-200003 ABRIL 2020

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