Epidemiologia do HIV no Brasil

13/03/2020

 

A equipe multidisciplinar é muito importante para o controle desta epidemia

Pôr fim à epidemia de AIDS é mais do que uma obrigação histórica para com os 39 milhões de pessoas que vieram à óbito devido à doença. Esse ato inspirará esforços mais abrangentes na área da saúde global e do desenvolvimento internacional, demonstrando o que pode ser alcançado por meio de solidariedade global, ações baseadas em evidências e parcerias multissetoriais.1

Buscando a construção de uma nova narrativa sobre o tratamento do HIV, está se consolidando um movimento que define, também, uma nova meta ambiciosa que prevê que até 2020:

  •  90% de todas as pessoas vivendo com HIV (PVHIV) saberão que têm o vírus;
  •  Destas, 90% receberão terapia antirretroviral ininterruptamente e;
  •  Destas, 90% terão supressão viral.1

Atingindo essa meta, ao menos 73% de todas as PVHIV alcançarão a supressão viral – um número dois a três vezes maior que as atuais estimativas aproximadas de supressão viral – e, como mencionado, a meta prevê 2020 como ano limite, assim sendo, é de grande importância analisar a epidemiologia do HIV no Brasil.1

Nesse contexto, a cascata do cuidado contínuo do HIV contabiliza o número de indivíduos inseridos na assistência às PVHIV/AIDS em todas as etapas de cuidado. A perda de indivíduos pode ocorrer em diferentes pontos, o que faz com que o número de indivíduos observados em cada etapa da cascata seja menor que na anterior.2 O acompanhamento dos indicadores referentes às metas 90-90-90 pode ser realizado, entre outros instrumentos, por meio do monitoramento das perdas entre cada uma das etapas da cascata de cuidado contínuo.2

Com relação ao diagnóstico do HIV, primeiro desafio das metas 90-90-90, observa-se os indicadores da cascata de cuidado contínuo a partir de 2015 a manutenção da porcentagem de PVHIV com apresentação tardia; ao mesmo tempo, nota-se aumento do número e da proporção de pessoas diagnosticadas.2 Mesmo com os avanços, ainda é desafiador o alcance da meta em que 90% das PVHIV diagnosticadas sejam tratadas ainda este ano.

Estima-se que, ao final de 2018, havia aproximadamente 900 mil PVHIV no país, das quais 766 mil (85%) foram diagnosticadas; 81% (731 mil) haviam sido vinculadas a algum serviço de saúde; e 643 mil (71%) estavam retidas nos serviços (Gráfico 1).2 Observa-se cobertura antirretroviral de 66% (594 mil) e supressão viral (carga viral inferior a 1.000 cópias/mL) de 62% (554 mil) entre todos os indivíduos infectados pelo HIV. Nesse mesmo ano, aproximadamente 573 mil homens e 327 mil mulheres estavam infectados pelo HIV no Brasil.2

Gráfico 1. Cascata de cuidado contínuo do HIV*. Brasil, 2018. Adaptado a partir da referência 2.

As mortes relacionadas à AIDS no Brasil caíram consideravelmente de 2014 à 2018. Nos últimos cinco anos, o número de mortes pela doença caiu 22,8% – de 12,5 mil em 2014 para 10,9 mil em 2018.3 Os dados são positivos, no entanto, acredita-se que 135 mil pessoas vivam com HIV no Brasil e ainda não saibam.3 Além disso, dados registrados nos últimos anos demonstram que a infecção por HIV cresce mais entre os jovens de 20 a 34 anos, tendo cerca de 18,2 mil notificações (57,5%).3 Essa situação constitui um desafio importante quando se pensa no combate à epidemia.

Em relação aos casos de AIDS, quando a pessoa desenvolve a doença, estima-se que 12,3 mil casos tenham sido evitados no país no período de 2014 a 2018.3 Em toda série histórica, a maior concentração de casos de AIDS também está entre os jovens de 25 a 39 anos, de ambos os sexos, havendo 492,8 mil registros.3

Quando os primeiros casos de AIDS foram identificados no Brasil e no mundo, ainda não existiam as terapêuticas atualmente disponíveis. Os jovens de hoje não testemunharam o início da AIDS, quando milhares de pessoas vieram à óbito sem ao menos compreender o que estavam enfrentando. Apesar das várias lutas contra o preconceito e contra a doença, é de grande importância trabalhar para adoção de medidas preventivas rotineiras que reduzam a taxa de infecção pelo vírus. A criação de mecanismos para conscientização da sociedade é de grande importância, sendo necessário difundir informações quanto a realização de testagem para HIV e consequências da doença, além de incentivar e buscar a adesão ao tratamento.3

Nesse cenário, a equipe multidisciplinar tem papel fundamental no acompanhamento das PVHIV, sendo importante construir uma relação de confiança desde o acolhimento, além de auxiliar no combate ao estigma e preconceito, conversar sobre a importância da boa adesão ao tratamento e buscar facilitar o processo.4 Isso significa incluir as PVHIV no serviço de saúde, considerando suas expectativas e necessidades.4

Outro aspecto que deve ser trabalhado pela equipe multiprofissional é como incentivar e facilitar o processo de retenção do paciente. Conforme observado na cascata de cuidado contínuo, uma parte significativa dos pacientes já diagnosticados não se mantêm retidos aos serviços de saúde.4 Portanto, os profissionais de saúde podem – e devem – adotar estratégias que não só facilitem o acesso ao serviço de saúde mas, contemple todos os aspectos da integralidade do cuidado de acordo com as necessidades de cada PVHIV, para obtenção de um maior engajamento por parte dos pacientes junto ao serviço.5

Em resumo, o acompanhamento da PVHIV é imprescindível e o vínculo entre profissional e paciente promove sua participação durante o cuidado e, consequentemente, a sua retenção. Assim sendo, a equipe multidisciplinar, com especial destaque aos profissionais que atuam na linha de frente, como enfermeiros, farmacêuticos, psicólogos e médicos, que possuem um convívio mais constante com o paciente, devem se empenhar para um atendimento integralizado ao paciente, colaborando assim para o atingimento das metas 90-90-90 e para a melhora do quadro epidemiológico do HIV e AIDS no país.5

E você? Está fazendo a sua parte?

Referências:

 

 

NP-BR-HVX-WCNT-200002 FEVEREIRO 2020