Os diferentes conhecimentos da equipe multidisciplinar

13/08/2019

 

 

Em meados do ano de 2016, um rapaz de 26 anos, solteiro, procurou pelo serviço especializado em infecções sexualmente transmissíveis (IST) da região onde residia para realização de testagem rápida para HIV. No centro de testagem e aconselhamento, realizou as entrevistas iniciais com o profissional de saúde, e foi diagnosticado com infecção pelo HIV. 1,2 Ele foi matriculado e foi agendada uma consulta médica em poucas semanas, quando foram solicitados exames laboratoriais de rotina, além da contagem de linfócitos T CD4+ e carga viral. 3,4 Na anamnese, não foi relatado o uso frequente de drogas ilícitas e, no exame físico, o paciente apresentou um bom estado geral, sem alterações significativas.

 

Em agosto de 2016, o médico responsável pelo tratamento/acompanhamento prescreveu a terapia inicial preconizada pelo Protocolo Clínico e Diretrizes
Terapêuticas da época. Durante os meses seguintes, o paciente demonstrou boa adesão ao tratamento, com frequência às consultas, aos exames e às retiradas de medicamentos. Confira o passo-a-passo desta história:

 

Olhar atento
Em maio de 2017, a profissional da recepção da unidade, notou estranheza no comportamento do paciente. Incomodada com a mudança e com as queixas
relatadas durante o agendamento, a profissional sugeriu que ele passasse por orientação com o psicólogo da unidade. Ela mesma procurou pelo profissional para explicar a situação, o qual confirmou a indicação.

 

Atendimento psicológico
Na consulta com o psicólogo, o paciente reclamou de diversos sintomas que interferiam gravemente em suas atividades profissionais.

 

Deixou de ir à academia, além de ter dificuldade de prosseguir com os estudos. Entre outras questões, possuía também comportamento frequente de risco de contaminação por outras ISTs. Inicialmente, o acompanhamento psicológico consistiu em certificar-se dos aspectos somáticos 5 e reativos produzidos pelo diagnóstico, e das consequentes mudanças na vida pessoal. Isto porque, mesmo o diagnóstico tendo ocorrido há algum tempo, é percebido com frequência que o tempo para assimilar pode ser longo e depende de diversos fatores. 6

 

Durante as consultas psicológicas, o paciente relatava inúmeras condições pessoais e emocionais, passadas e recentes, que poderiam justificar a sintomatologia que presentava. Porém, nas sessões seguintes, ele não conseguiu a manutenção de um padrão mais pacificado e tranquilizador, levando ao controle incompleto dos sintomas. Havia, sim, frustração por parte do psicólogo em relação a esses “não resultados”, buscando lançar mão de novas estratégias com a finalidade de eliminar ou minimizar tais reações. A equipe multidisciplinar deste serviço participava com frequência de todas as possibilidades de capacitação e atualização no atendimento a PVHIV promovidas por diferentes serviços. Este conhecimento permitiu ao psicólogo indagar sobre possíveis efeitos colaterais da medicação – uma vez que havia possibilidade de justificar o repertório comportamental do paciente.

 

Na discussão do caso com a equipe médica, foi apontada a necessidade de reavaliação do esquema antirretroviral, objetivando melhorar os sintomas e, consequentemente, a qualidade de vida do paciente.

 

Novo desafio
Foi discutida com o paciente a hipótese de reavaliação da terapia e seus possíveis benefícios. Entretanto, na revisão do prontuário, foi constatado que o último exame de carga viral (CV) estava indetectável, porém havia sido coletado há mais de seis meses.

 

Evolução
Após solicitação e coleta de novos exames, os resultados mostravam CV indetectável e sem outras alterações laboratoriais. Dessa forma, o psicólogo solicitou comparecimento do paciente. Foi prescrito ao paciente um novo esquema antirretroviral pelo médico. Na consulta subsequente, o paciente relatou melhora importante dos sintomas, com impacto positivo em sua rotina.

 

 

Considerações finais
O caso revela a importância do papel do psicólogo em discernir entre comportamentos com motivações pessoais e emocionais que podem se confundir com efeitos colaterais. Ainda, ressalta a essencialidade de uma equipe multidisciplinar atenta, esclarecida e capacitada para colaborar com a adesão e com a identificação de condições que podem impactar positivamente no bem-estar biopsicossocial das PVHIV.

 

 

NP-BR-DLT-CSTY-190001 AGOSTO 2019

 

Referências bibliográficas:

  • 1. BRASIL. Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais. Diretrizes para Organização e Funcionamento dos CTA no âmbito da Prevenção Combinada. Disponível em: http://www.aids.gov.br/pt-br/gestores/diretrizes-para-organizacao-e-funcionamento-dos-cta-no-ambito-da-prevencao-combinada. Acesso em: mar. de 2019.
  • 2.  BRASIL. Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais. Testes rápidos. Disponível em: http://www.aids.gov.br/pt-br/profissionais-de-saude/testes-rapidos. Acesso em: mar. de 2019.
  • 3.  BRASIL. STD, Aids and viral hepatitis. Sistema de Controle de Exames Laboratoriais da Rede Nacional de Contagem de Linfócitos CD4+/CD8+ e Carga Viral do HIV (SISCEL). Disponível em: http://www.aids.gov.br/es/node/59243. Acesso em: mar. de 2019.
  • 4.  BRASIL. STD, Aids and viral hepatitis. Manual de Adesão ao Tratamento para pessoas vivendo com HIV e Aids – 2008. Disponível em: http://www.aids.gov.br/es/node/59201. Acesso em: mar. de 2019.
  • 5.  CERCHIARI EAN. Psicossomática um estudo histórico e epistemológico. Psicologia: Ciência e Profissão. 2000;20(4), 64-79.
  • 6.  MORENO DMFC, Reis AOA. Revelação do Diagnóstico da Infecção pelo HIV no Contexto do Aconselhamento: A Versão do Usuário. Temas em Psicologia. 2013; 21(3): 591-609.