Paciente em abandono do tratamento requer atenção especial e individualizada pela equipe multidisciplinar

01/06/2020

 

A rotina imposta pelo início da terapia antirretroviral (TARV) pode ser um dos principais desafios para pessoas vivendo com HIV (PVHIV), já que, a cada nova dose, o medicamento acaba servindo como uma lembrança de seu diagnóstico. Este é o momento quando surgem as dúvidas quanto às mudanças que poderão ocorrer na rotina do paciente a partir de então. Nesse contexto, essa nova situação implica a abordagem efetiva da equipe multidisciplinar, a fim de facilitar a adesão adequada desde o primeiro momento.1

Uma vez estabelecida a rotina da TARV, a equipe deve se manter atenta para possíveis obstáculos à adesão, pois eles nem sempre são explicitados pelo paciente. Algumas das dificuldades incluem cumprir os horários, intolerância aos efeitos adversos, impossibilidade de comparecimento à unidade de saúde para a retirada dos medicamentos, entre outros.1 Nos dias atuais, devido às novas condições impostas, essa questão da ida ao serviço se tornou ainda mais um ponto de atenção.

Mesmo com todo o cuidado dedicado pela equipe, o abandono do tratamento ainda acontece e é razão de alerta. Estudos apontam que entre 30% a 50% de pessoas em uso de TARV interrompem seu tratamento por conta própria, por diferentes períodos de tempo, uma ou mais vezes ao longo do tratamento. O abandono da TARV pode ocorrer em paralelo ao abandono do acompanhamento clínico, incluindo o comparecimento às consultas, a realização de exames e qualquer outra ação relacionada ao autocuidado.1

Segundo o médico infectologista e clínico geral Dr. Fernando Crivelenti Vilar, os principais motivos observados para abandono, em sua prática são decorrentes da situação de rua e uso de drogas. Ele, que também é Doutor em Clínica Médica pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP- USP) e acumula a função de médico assistente da Unidade Especial de Tratamento em Doenças Infecciosas (UETDI) do Hospital das Clínicas da FMRP, ressalta a importância da atuação da equipe multiprofissional nesse cenário: “Quando identificamos um paciente com estas características, acionamos o assistente social para acompanhar de perto o caso e buscarmos soluções”.

Na experiência do Dr. Bernardo Porto Maia, médico infectologista pelo Instituto de Infectologia Emílio Ribas e Mestre em Saúde na Amazônia pela Universidade Federal do Pará, a principal causa é o preconceito: “O juízo de valor da sociedade sobre as práticas que levam o indivíduo a adquirir o vírus, como o sexo como tabu e a demonização do uso de drogas, reflete diretamente na dificuldade de aceitação da PVHIV sobre esta nova realidade. Este é o mais forte gatilho para a negação do diagnóstico e dificuldade de adesão à TARV”.

Quem abandona a TARV se torna mais vulnerável a infecções oportunistas, como toxoplasmose, criptococose, tuberculose e, apresenta risco aumentado de desenvolver resistência viral. “O tratamento irregular e o abandono podem representar um fator desencadeador de resistência do HIV a determinados fármacos”, ressalta Dr. Maia. Uma vez resistente, torna-se mais difícil ofertar esquemas antirretrovirais simplificados. Não raro, é necessária a combinação de maior número de medicamentos, o que, por sua vez, pode gerar outra barreira de adesão à TARV.

Nesse sentido, Dr. Vilar acrescenta que, na maioria das vezes, os pacientes que abandonaram o tratamento e que voltam ao serviço não estão em busca da TARV, mas, sim, de atendimento por razão de infecções oportunistas. “E é nesse momento que a equipe precisa identificar o que houve com esse indivíduo e tentar trazê-lo de volta para o tratamento”, diz. “No momento da alta do tratamento pela infecção oportunista, temos de oferecer a possibilidade para que ele não volte para a rua e seja encaminhado para uma clínica de tratamento contra o vício ou a uma entidade que o acolha, se for este o caso. Esse é o nosso maior desafio”, conta.

O que fazer quando o paciente retorna ao serviço de saúde após abandono da TARV?

Restabelecer e fortalecer o vínculo do usuário com o serviço de saúde e não objetivar apenas trazer o usuário de volta. Além disso, fazê-lo conhecer sua situação atual e trabalhar com ele os fatores que estão determinando a má adesão.1 Considerando essa situação, Dr. Vilar lembra que o primeiro passo é acolher o paciente na unidade. Ele deve se sentir apoiado e à vontade com a equipe. “Os membros do time têm que ser orientados quanto a esse reacolhimento, sem nunca o julgar pelo abandono. Há que se mostrar ao paciente que esta é uma nova chance, um recomeço, em prol da sua saúde e da sua dignidade. Ele precisa confiar em todos que o atendem para continuar seu tratamento com regularidade”, detalha.

Além disso, o infectologista conta que o Ambulatório do HC-FMRP de atendimento a PVHIV e a rede municipal de saúde (Ribeirão Preto) adotam um atendimento individualizado. “O paciente sempre passará com o mesmo médico e conhecerá todos os membros da equipe que o assistem – enfermeiros, auxiliares de enfermagem, assistente social, psicólogo, farmacêutico, dentista. Isso fortalece o vínculo que deve ser reforçado por cada profissional em suas respectivas esferas”, diz.

Dr. Maia reflete que os médicos ainda têm muito a melhorar neste ponto. “A postura do médico, em geral, ainda é muito impositiva de verdades e, por vezes, carregadade preconceito. É preciso olhar para o outro com empatia, colocar-se no lugar do paciente e acolher sem julgar”, reflete. A melhor forma de contornar as situações que motivam o abandono é reforçando o vínculo entre a equipe de saúde e o paciente, e isso só acontece quando não há julgamentos interpostos entre as partes.

Dr. Maia também acredita que a relação profissional de saúde-paciente é a chave para tudo. “Ter segurança sobre o tratamento proposto e garantir que o paciente confie na prescrição médica são os primeiros passos para conscientizar a respeito da necessidade de aderir à TARV”, diz. Sistemas como o SISCEL (Sistema de Controle de Exames Laboratoriais da Rede Nacional de Contagem de Linfócitos CD4+/CD8+ e Carga Viral do HIV), que permite monitoramento de CD4 e carga viral, auxiliam na detecção precoce deste problema. O paciente que evolui com queda importante do CD4 ou aumento de carga viral sem outra explicação evidente deve ser investigado pela equipe de saúde a respeito.

O médico explica que, antes de partir para o biológico, o mais importante é conhecer o que motivou o paciente a abandonar o tratamento e explorar soluções para este problema. Do contrário, não importa qual tratamento seja prescrito, a chance de sucesso terapêutico será mínima.

Retomada do tratamento em tempos de isolamento social

No serviço em que Dr. Maia trabalha, na Casa Dia, em Belém (PA), foi estabelecido um fluxo limitado de pessoas e atendimentos durante este período de isolamento social. No entanto, foi mantido o atendimento a pacientes sintomáticos e para consultas de primeira vez. “Surpreendentemente, temos atendido mais consultas de primeira vez do que PVHIV sintomáticas. Uma boa parcela dessas consultas de “primeira vez” são, na verdade, retorno de pacientes que haviam abandonado o tratamento há muitos anos e, agora, motivados pelas informações em saúde resolvem retomar o tratamento do HIV”, conta. Independente do momento, quando um paciente retorna ao serviço procurando retomar seu tratamento para o HIV é importante que a equipe de saúde adote estratégias que permitam a retomada da TARV e preservação da imunidade, considerando a vulnerabilidade de cada paciente. Além disso, adotar ações que reforcem o entendimento do paciente quanto ao seu tratamento e o vínculo com o serviço podem contribuir para evitar a reincidência do abandono.

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O profissional citado contribuiu de forma voluntária para essa ação, não tendo recebido nenhum pagamento para este fim.

 

 

NP-BR-HVX-BRFS-200004 MAIO 2020

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